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O que conta são os melhores anos de Mário Soares - Os que recordaremos

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Quando nos recordarmos de Mário Soares, vamos recordar-nos de quê? Há políticos de que só nos recordamos dos seus melhores momentos, outros de que só lembramos os seus grandes erros.

1. Quando nos recordarmos de Mário Soares, vamos recordar-nos de quê? Há políticos de que só nos recordamos dos seus melhores momentos, outros de que só lembramos os seus grandes erros.

Um caso paradigmático do primeiro grupo é Winston Churchill. Raramente recordamos a trágica determinação com que planeou o desembarque em Gallipoli, durante a I Guerra Mundial, um desastre militar que o levaria a renunciar ao lugar de Primeiro Lorde do Almirantado (uma espécie ministro da Marinha de guerra) ou o facto de não ter compreendido, depois da II Guerra, que o Reino Unido não podia manter o seu império. Em vez disso, ele passou à História, com “H” grande, como o grande líder da resistência ao totalitarismo nazi e como um dos primeiros a denunciar com clareza o que Estaline estava a fazer na Europa de Leste no pós-guerra. Ele é o primeiro-ministro do “sangue, suor e lágrimas” e alguém que, nesses anos, tinha uma absoluta claridade sobre o que era decisivo fazer para vencer a guerra (conseguir que os Estados Unidos abandonassem o seu isolacionismo) e que por isso chegou a ordenar operações militares destinadas ao fracasso e que custaram muitas vidas humanas (Max Hastings descreve primorosamente esses tempos em Os Melhores Anos).


 

Mário Soares, o lutador

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Mário Soares, quando foi grande, foi-o por ter sido maior que fronteiras, grupos ou barricadas, intuindo melhor que ninguém onde era o seu lugar e qual a tarefa nacional que lhe competia cumprir.

Liberdade, Democracia, Europa
Momento triste para mim: uma certa orfandade política que, embora esperada, só agora de facto se consumou – e não é senão esta a irremediável marca da morte. Orfandade que é real e me pesa. Uma perda que nada absolutamente tem a ver com ser de esquerda ou de direita. Mário Soares, quando foi grande, foi-o por ter sido maior que fronteiras, grupos ou barricadas, intuindo melhor que ninguém onde era o seu lugar e qual a tarefa nacional que lhe competia cumprir. E não, não foi só no combate anticomunista de 1975, o que, não sendo pouco e sendo definitivo, não esgota nem resume aquilo de que era feito: a vocação da liberdade que vinha de longe, era antiga e tudo contaminou pela vida fora; a envergadura da sua coragem; o rasgo de alguns gestos políticos, o tamanho da sua intuição política.

Mas há mais neste homem, há duas ou três ideias, claras e simples, que foram sempre as mesmas mas tão essenciais ao seu propósito de democrata-lutador- -pela-democracia que chegaram para lhe conferir um destino: a liberdade, a democracia, a Europa, a irrefutável certeza da nossa pertença ao mundo ocidental e do compromisso dessa pertença. Do que podíamos ser e representar.


 

O Fim de uma Era

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Soares era de outra época. E eu fui dessa época com ele.

Soares foi de um tempo em que o amanhã seria forçosamente melhor do que o hoje - e disso todos estávamos convictos. Viveu e lutou com uma coragem assinalável e, sobretudo, levando a sério o que fazia, nunca se permitiu furtar a uma gargalhada, mesmo que inconveniente, furar o protocolo, mesmo que um pouco irresponsavelmente, e fazer o que lhe apetecia, mesmo que um pouco inconscientemente. Como Churchill – e neste aspeto há um paralelo claro – conseguia ser simultaneamente uma criança mimada e um estadista ímpar. Transformava inimigos em amigos (o vice-versa foi muito mais raro) e nunca se esqueceu daqueles que lhe foram leais, ainda que com ele não concordassem. Mais do que um homem, é um símbolo.

Ora, falar de alguém nosso amigo de sempre e, simultaneamente, referência do País, símbolo da Pátria, é extraordinariamente difícil. Adversários vários, dos comunistas à direita, sempre disseram que ele não tinha uma linha política definida, que navegava ao sabor das marés. Porém, se é verdade que Soares sempre viveu da intuição, mais verdade é que foi talvez o único político que num tempo sem liberdade e com pouca informação, como era o do Estado Novo, tenha posto em letra de forma (no livro ‘Portugal Amordaçado’) três objetivos que cumpriu na íntegra.


 

Pai fundador e enfant terrible: Mário Soares e a democracia em Portugal

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Com a morte de Mário Soares, acaba o século XX em Portugal. A sua vida resumia quase todo o século. Soares ainda tinha conhecido as grandes figuras da I República, políticos como António Maria da Silva (que não admirava), ou intelectuais como Jaime Cortesão (de quem se considerava discípulo).

Estava em fotografias com Norton de Matos (em 1949) ou com Humberto Delgado (em 1958). A ditadura salazarista prendeu-o, deportou-o e exilou-o. Depois de 1974, venceu e perdeu eleições, foi primeiro- -ministro, foi Presidente da República. Por isso, desde pelo menos 1996, quando acabou o seu mandato presidencial, que quase todos desejaram tratá-lo como uma personagem histórica. Mas Soares, por mais avançado nos anos, nunca se dispôs a cumprir o papel de pai fundador do regime, a pairar sobre querelas e confrontos. Enquanto esteve activo, e esteve-o quase até ao fim da vida, fez questão de tomar partido e de dividir as opiniões. Ainda foi candidato presidencial, contra tudo e contra todos, em 2006, aos 82 anos. Ainda protagonizava polémicas em 2014, aos 90 anos.

No fim, todos tinham razões para o admirar, e todos tinham razões para o criticar. O político que confrontara Vasco Gonçalves na Fonte Luminosa, em Julho de 1975, foi o mesmo que, em Novembro de 2014, quase quarenta anos depois, defendeu José Sócrates diante da prisão de Évora. Houve quem, nos últimos tempos, referisse a sua idade como atenuante. Sim, Soares envelhecera. Mas não mudara. Houve, na sua vida, uma coerência que convém reconhecer. Não era uma coerência doutrinária, como a que tornou Álvaro Cunhal célebre entre a burguesia portuguesa, mas um outro tipo de coerência, que explica, entre outras coisas, porque é que, tendo submetido o país à austeridade em 1983, ao lado do PSD, a contestou em 2013, ao lado do PCP.


 

Mário Soares e a liberdade como modo de vida habitual

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A Mário Soares devemos, além da liberdade, a difusão entre nós de uma atitude ou maneira de estar que torna a liberdade duradoura: a disposição para usufruir da liberdade habitualmente.

A notícia da morte de Mário Soares não nos atingiu de surpresa. Todos sabíamos que podia chegar a qualquer momento. Ainda assim — no meu caso e certamente no de muitos outros — atingiu-me duramente. Um silêncio profundo envolveu uma avalanche de recordações. E, com elas, renasceu o sentimento de gratidão — que de forma tão tocante tem sido expresso por tantas e tão diferentes vozes que lhe agradecem a liberdade.

Creio que de facto devemos a liberdade a Mário Soares, embora muitos outros tenham também combatido pela liberdade — ao seu lado e muitas vezes em lados diferentes. Mas a Mário Soares devemos, além da liberdade, a difusão entre nós de uma atitude ou maneira de estar que torna a liberdade duradoura: a disposição para usufruir da liberdade habitualmente.


 

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