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Contra a Falsa Esperança


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Contra a Falsa Esperança

Era Cioran, o conhecido filósofo romeno, quem dizia que o pessimista era apenas o mártir do senso comum. A frase aplica-se a Roger Scruton, primus inter pares dos conservadores modernos.

Roger Scruton
The Uses of Pessimism and the Danger of False Hope

London: Atlantic Books, 2010

 Contra a Falsa Esperança

POR JOÃO PEREIRA COUTINHO

Professor Auxiliar do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

Emesmo que o pessimismo de Scruton não seja da mesma natureza trágica (e ateia) do de Cioran, existe em Scruton essa igual vontade de demolir, com sabedoria e elegância, os «preconceitos progressistas » da modernidade. Um trabalho difícil e ingrato que pressupõe um confronto prévio com o pecado capital que os sustenta: o pecado da arrogância humana. O pecado do racionalismo extremo que, nas palavras do autor, leva os homens a acreditar que não apenas podem antecipar o futuro como, igualmente, controlá-lo.1

Eis a «falsa esperança» a que alude o título desta obra: um mecanismo intelectual que transforma problemas em soluções e desgostos em exaltações.2 Neste processo de optimismo radical – um processo que, para além de erróneo, pode ser perigoso – perde-se o «pessimismo» que deve nortear a acção política. Ou, talvez de forma mais rigorosa, perde-se o «cepticismo» de falava Oakeshott por oposição às «políticas da fé». Despreza-se a tradição, a lei estabelecida; e, naturalmente, o senso comum.

É contra esse assalto ao senso comum que Scruton se rebela. Um assalto que se encontra, desde logo, no mundo pós-humano dos cientistas transhumanistas que, nos seus desejos de abolir a morte pela conquista de uma eternidade artificial, acabarão também por abolir as virtudes humanas de paixão e compaixão que só são possíveis como resultado da nossa intrínseca mortalidade. Amamos porque não temos todo o tempo; um mundo de eternidade garantida seria também um mundo de tédio garantido. Um mundo onde nada é urgente porque não há urgência.

Mas a «falsa esperança» não reside apenas nessas buscas desesperadas de romper com as limitações naturais; também se encontra na busca desesperada de romper com as contingências que se abatem sobre a acção dos homens, alterando por vezes de forma dramática as suas intenções. A «falsa esperança» nega essa margem que não controlamos porque a mera admissão de resultados não-previstos seria uma admissão de fraqueza e, palavra proibida, de imperfeição intelectual. Nas palavras de Scruton,

there is a kind of addiction to unreality that informs the most destructive forms of optimism: a desire to cross out reality, as the premise from which practical reason begins, and to replace it with a system of compliant illusions.3

Contra a Falsa Esperança

E o que se torna verdadeiramente notável, e perigoso, na mentalidade optimista é que esta jamais aceitará a responsabilidade pelos seus fracassos. A responsabilidade será sempre dos outros. Será dos inimigos, sejam eles burgueses ou judeus; americanos ou israelitas; mas será também dos amigos, ou seja, daqueles que atraiçoaram, por ignorância ou tibieza, a beleza intocável do ideal. Não é por acaso que, ainda hoje, existe no Ocidente democrático quem tente salvar o ideal marxista da sua realização leninista.

É contra estes inimigos, voluntários ou involuntários, que o optimista deve lutar: salvando a utopia da reaccção; a liberdade real de uma liberdade ilusória.

E o que entende o optimista por liberdade real? Responde Scruton: freedom is what is left when we take all institutions, all restraints, all laws and all hierarchies away.4 A liberdade seria, numa tal concepção, um valor em crisálida que só poderia florescer, em suma, depois da destruição total.

É contra este radicalismo de ressonâncias rousseaunianas que o «pessimismo» de Scruton se manifesta. E manifesta-se ao negar a premissa fundamental de Rousseau de que, apesar de nascermos livres, nos encontramos aprisionados em toda a parte.

Os homens não nascem livres; como diria Oakeshott, eles tornam-se livres ao participarem na grande conversação da Humanidade. Ou, como escreve Scruton, freedom, however valuable in itself, is not a gift of nature but the outcome of an educational process, something that we must work to acquire through discipline and sacrifice.5

Disciplina e sacrifício. Haverá duas palavras mais distantes do linguajar optimista que promete um estado de perfeição e realização permanentes? Desconfio que não. Mas também desconfio que a gramática do anything goes é apenas uma falsificação grosseira da nossa condição. Porque sem «disciplina » e «sacrifício» os fundamentos da nossa civilização acabarão por sucumbir às investidas dos bárbaros.

Comecei com Cioran. É justo que termine com ele. Num dos seus mais conhecidos aforismos, escrevia o romeno: «Alarico [rei dos Visigodos] afirmou que um demónio o conduzira contra Roma. Todas as civilizações exaustas esperam pelo seu bárbaro e todos os bárbaros esperam pelo seu demónio. »

A exaustão moral e intelectual do Ocidente é também o resultado da forma como fomos entregando à «falsa esperança» os imperativos de negociação e prudência sem os quais as nossas sociedades não sobrevivem.


1 Scruton, Uses of Pessimism, 2;
2 Ibid., 5-6.;
3 Ibid., 25.;
4 Ibid., 42.;
5 Ibid., 54.


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