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As Cartas Amargas de Isaiah Berlin

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As Cartas Amargas de Isaiah Berlin

É um facto que a vida não deve ser confundida com a obra; e casos existem de figuras “difíceis” que deixaram livros sublimes.

Enlightening:
Letters 1946 – 1960
Isaiah Berlin

Chatto & Windus, 2009

As Cartas Amargas de Isaiah Berlin

É um facto que a vida não deve ser confundida com a obra; e casos existem de figuras “difíceis” que deixaram livros sublimes.

Enlightening:
Letters 1946 – 1960
Isaiah Berlin

Chatto & Windus, 2009

POR JOÃO PEREIRA COUTINHO

professor do IEP-UCP

Valeu a pena esperar pelo segundo volume das cartas de Isaiah Berlin? Não estou seguro disso. Verdade que as cartas de Berlin são um dos projectos mais notáveis do mundo editorial anglo-saxónico. Mas existem vários perigos na publicação de correspondência privada. O maior deles, a que Berlin não escapa, é apresentar o autor sob uma luz desagradável. Tão desagradável que acaba por contaminar e ferir o espaço autónomo da reflexão teórica.

É um facto que a vida não deve ser confundida com a obra; e casos existem de figuras “difíceis” que deixaram livros sublimes. Evelyn Waugh é um nome clássico. Mas quando a personalidade de que falamos não é um romancista; quando se trata de um filósofo e historiador das ideias que assume em público uma postura normativa; quando é alguém, no fundo, que fez da luta pela “sociedade decente” o cerne dos seus escritos políticos, como devemos receber o retrato essencialmente “indecente” que emerge destas missivas?

O presente volume começa onde o primeiro terminava, ou seja, depois da Segunda Guerra Mundial.1 Estende-se até 1960. O arco temporal é importante: falar de 1946–1960 é, no caso de Berlin, falar do momento crucial em que o autor lançou os alicerces das suas preocupações teóricas fundamentais – da defesa da liberdade negativa à proposta pluralista que se assume como colírio necessário contra os excessos monistas.

Acontece que não são estas as matérias que povoam o segundo volume. Muito menos os acontecimentos de importância global que o período oferece: a fundação do Estado de Israel, por exemplo, ou a crise do Suez em 1956. Os acontecimentos estão lá, sem dúvida; mas o que fica é o “gossip” permanente de Berlin com os seus interlocutores de eleição; e, dentro do “gossip”, diferentes graus de perversidade.

Existem momentos cómicos, é certo: Berlin conheceu toda a gente que era gente no século XX e ler estas cartas é viajar no tempo para o interior dos melhores salões da Europa e dos Estados Unidos. Não nego que ri alto com as apreciações de Berlin sobre Greta Garbo (“goodness she is dumb”, p. 112) e até aplaudi a sentença demolidora sobre Jean-Paul Sartre (“politically & personally repulsive”, p. 310). Para não referirmos já outros alvos menores, como Rebecca West (“undoubtedly a dreadful woman”, p. 368) ou a própria Rainha Isabel II, que em 1957, ano em que o nobilitou, era aos olhos de Berlin “this grave, dull, limited, horsey young Victorian prig” (p. 592). Não sei exactamente o que pretendiam Henry Hardy e Jennifer Holmes, responsáveis pela presente edição, com a revelação destas idiossincrasias. Se a ideia era mostrar que Berlin não era um santo, a missão foi cumprida.

O problema é que as cartas não mostram apenas um homem com as falhas comuns dos homens. O enredo começa a complicar-se quando os comentários depreciativos envolvem os amigos próximos: aqueles que Berlin elogia em público e simplesmente corrói em privado. Não é uma leitura fácil, por exemplo, ler as linhas elogiosas de Berlin ao velho amigo Felix Frankfurter – para nos depararmos, quando muda o interlocutor, com a censura da obra de Frankfurter em termos particularmente insidiosos. Como também não é fácil ler as linhas de “profunda” admiração por A. L. Rowse – e descobrir, noutros escritos, os esforços sistemáticos de Berlin para impedir Rowse de assumir as mais altas honras académicas em Oxford.

Para usar um termo caro aos britânicos, estamos na presença de uma grave falta de gentlemanship, o que não deixa de ser uma surpresa: se existe alguém que parece personificar o gentleman no século XX, esse alguém é Berlin. E, no entanto, Berlin parece ser incapaz de cumprir as regras essenciais do ethos cavalheiresco: ser leal ao seu “pequeno pelotão”; e, sobretudo, só falar alto com alguém que é capaz de responder no mesmo tom. Infelizmente, este último imperativo não sucede na troca de cartas com T.S. Eliot – seguramente o momento mais dramático do livro (pp. 277–283).

O pretexto para esse diálogo é o ensaio de Berlin “Jewish Slavery and Emancipation”. No ensaio, Berlin procedia a uma vigorosa defesa do Estado de Israel como forma de solucionar a condição errante dos judeus da Diáspora. Israel era, aos olhos de Berlin, uma opção suplementar que permitia à nação judaica ficar nos países de acolhimento – ou emigrar para a Palestina. Por isso Berlin se insurge, no ensaio, contra Eliot (e Kostler): com típico antisemitismo, Eliot afirmara em After Strange Gods (1934) como era indesejável a presença de um grande número de “free-thinking Jews” nas comunidades cristãs do Ocidente. Para Eliot, aos judeus só restavam duas opções: a assimilação completa ou a partida sem demoras para o Médio Oriente.

No ensaio, Berlin criticava, e bem, o radicalismo de Eliot. Depois da publicação do texto, Eliot responde-lhe. A resposta é um casus belli de ambiguidade intolerante: ao mesmo tempo que nega o sentido do que tinha escrito em 1934, Eliot reafirma-o. A resposta de Berlin é de uma tibieza ultrajante, chegando mesmo a raiar as fronteiras da cobardia intelectual.

O livro termina com o autor em plena meiaidade, altura da vida em que o sentimento de insegurança, omnipresente nestas cartas, começa a dar lugar à brandura da velhice. Esperemos pelo terceiro volume para confirmar, ou dissipar, o sabor amargo que este segundo nos deixou.


1 O primeiro volume das cartas de Isaiah Berlin, Flourishing: Letters 1928–1946, foi comentado no nº 34 da Nova Cidadania (Outubro/ Dezembro de 2007) em artigo da nossa autoria sob o título “Retrato do Filósofo quando Jovem” (pp. 64–66).


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