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O Poder da Máscara

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Political_Hypocrisy

Em Political Hypocrisy – The Mask of Power, from Hobbes to Orwell and beyond, David Runciman argumenta que a hipocrisia política é inevitável, persistente e omnipresente nas democracias liberais.

Political Hypocrisy - The Mask of Power, from Hobbes to Orwell and beyond
David Runciman

Princeton University Press 2008

 

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Em Political Hypocrisy – The Mask of Power, from Hobbes to Orwell and beyond, David Runciman argumenta que a hipocrisia política é inevitável, persistente e omnipresente nas democracias liberais.

Political Hypocrisy - The Mask of Power, from Hobbes to Orwell and beyond
David Runciman

Princeton University Press 2008

POR CARLOS MARQUES DE ALMEIDA

Doutorando no Instituto de Estudos Políticos da Universid id ade Católica Portuguesa

O Poder da Máscara 

Sendo no entanto um vício, a crítica à hipocrisia degenera demasiadas vezes numa hipocrisia de segundo grau que, enaltecendo a virtude e a verdade, pratica exactamente o defeito que pretende redimir com a verdade e a virtude. O mundo de Runciman é assim um lugar peculiar e no qual a virtude se transforma na prática sofisticada e superior do vício. Não será o mundo às avessas, mas será certamente uma planície de espelhos que reflectem uma imagem até ao limite infinito em que a hipocrisia e a sinceridade se fundem na imaginação e na quimera.

A questão pode ser entendida no dilema da escolha livre e democrática – que variedade de hipócrita deve ser objecto de selecção política? A questão ilumina-se com o brilho de um reflexo cínico. No entanto, para David Runciman a expressão máxima de um gesto cínico será precisamente a pretensão de considerar a política da perspectiva da verdade. Para o Autor, a forma mais insidiosa de hipocrisia política coincide rigorosamente com a afirmação de uma política livre e expurgada do vício da hipocrisia. Em política, o vício não presta tributo à virtude, tanto mais que a virtude e o vício se escondem nas palavras e se juntam no rosto real e fictício que compõe a máscara. Abstraindo as questões de método e a dimensão normativa inerentes à teoria política, para David Runciman a política é e será sempre um teatro de máscaras.

Deste modo, a reflexão regressa ao início. No princípio, a hipocrisia vivia nos palcos de um teatro. Na Grécia Antiga, o hipócrita seria o actor, o indivíduo que esquecia a sua personalidade para poder representar todas as personalidades. Originalmente, o termo grego hypocrisis significava representar uma personagem. Assim, a hipocrisia seria um termo técnico e descritivo associado à arte teatral, não existindo qualquer sentido pejorativo ou emanação de natureza moral. O actor seria o intérprete de uma vontade ditada pelo dramaturgo. O hipócrita deveria mentir para dizer a verdade, o hipócrita dizia o que não pensava e mostrava o que não sentia. Na realidade do teatro, no espaço convencional de um ritual, na fronteira delimitada pelo proscénio, a hipocrisia não representava, nem um vício, nem uma virtude. Mas no dia em que o actor deixou o palco e se aventurou pela vida real e corpórea, a hipocrisia invadiu o mundo e encontrou na política um palco no meio do mundo. O hipócrita deixava de ser o rosto da ficção e passava a constituir-se como parte integrante da face do homem na cidade. Para além do enredo e do jogo das personagens, o hipócrita vivia agora no meio de nós. No meio de uma audiência inocente da sua condição, livre das convenções teatrais e de um enredo particular, o hipócrita feito político ganhou uma soberba liberdade para adoptar uma incomensurável variedade de máscaras. Colocada entre o observador e o rosto real, a máscara projecta sempre no mundo um olhar passível de um conteúdo político e de um juízo moral. Como escreveu Oscar Wilde – “Give a man a mask and he will tell you the truth”.

O drama e a política partilham uma relação nem sempre óbvia com a realidade. Se a política é limitada à “arte do possível”, para Aristóteles o drama poderia ser considerado a “arte do provável”. De acordo com Robert Grant, talvez o que torna o drama plausível será a razão exacta que faz da política o ofício do possível, nomeadamente, o reconhecimento comum de uma natureza das coisas humanas, bem como a fidelidade partilhada em relação à superfície das aparências vivas. Deste modo, o drama estaria circunscrito a um naturalismo pobre e a política condenada a um pragmatismo frívolo. Em ambas as esferas dominaria a tipificação e a generalização e cujo corolário seria um entendimento do mundo suportado na transcendência parcial do imediato. O drama e a política são modos diferenciados do pensamento humano, tanto quanto são formas diferenciadas de abstracção sobre a matéria humana. Nesta perspectiva, Political Hypocrisy representa uma tradição da teoria política em que a dimensão dramática e o sentido da realidade estão constantemente presentes. Entre o is e o ought to be, David Runciman percorre as vicissitudes da hipocrisia no contexto da fi losofi a política liberal, um percurso marcado por uma incontornável tensão e pela emoção própria das contingências de um drama.

A sequência de autores que Runciman convoca no livro pode surpreender pelo inesperado e pelo tema – Thomas Hobbes; Bernard Mandeville; Benjamin Franklin, John Adams e Thomas Jefferson; Jeremy Bentham; Anthony Trollope, John Morley e Henry Sidgwick; George Orwell. A escolha heterodoxa justifica-se pela tentativa de encontrar um discurso coerente sobre a hipocrisia no pensamento político liberal, o que justifica a selecção de Autores que representam uma tendência anti-hipocrisia enquanto persistentes e impenitentes truth-tellers. A moral, se de facto existe uma moral, reside na aceitação da hipocrisia como um facto corrente da política liberal e democrática - reconhecimento que não exige resignação, nem impõe uma adesão cínica. A solução de Runcimam implica a cessação do esforço de erradicação de todas as variedades da hipocrisia, impondo o reconhecimento de um limite, a identificação de uma categoria benigna e a denúncia de uma espécie maligna. Finalmente, surge a proposta para o fim de uma saga que se transformou no grande fetiche da política liberal – a concretização do ideal da sinceridade e da autenticidade como virtudes cardeais do homem político. No discurso de David Runciman, a hipocrisia política não se libertou da realidade do vício a que sempre pertenceu. No entanto, quando se começa a distinguir e a adjectivar um vício caminha-se tranquilamente na direcção do relativismo.

O tema da sinceridade e da autenticidade é um clássico da teoria política. Jean-Jacques Rousseau será um Autor imediatamente convocado pela memória mais ilustrada e em defesa da revelação do autêntico e do genuíno, não apenas no político, mas de todos nós através do político. Mas Rousseau está também no centro da meditação de Bernard Williams em Truth and Truthfulness (2002) a propósito dos perigos de uma autenticidade procurada ou imposta enquanto valor supremo. Em Political Hypocrisy, o capítulo sobre George Orwell (curiosamente, ou não, um jornalista e escritor) será o que remete o leitor para a evidência de uma longa agonia no conceito de autenticidade e na exigência da verdade elevados ao extremo de uma situação limite. No romance Nineteen Eighty-Four quando Winston Smith é conduzido à sala de interrogatório, o fatídico Room 101, depara-se com a simplicidade pura da nudez de um gabinete anónimo. Não existe sofisticação, não é visível qualquer representação da ameaça, visão do inferno ou promessa de violência. O vazio da sala está desenhado para ampliar, à dimensão do insuportável, a verdade mais profunda que Winston Smith julga segura no silêncio da alma ou no conforto do cérebro. Cada indivíduo é habitado por um fantasma, espécie de terror ou medo absoluto que, para não o dominar, tem de ser dominado pela auto-ilusão e pela dissimulação. No entanto, em Nineteen Eighty-Four não existe um espaço livre e impermeável à política, toda a verdade é a verdade política, toda a mentira é a verdade política e o território interior e íntimo do indivíduo é também uma verdade manipulável e política. É o mundo em que a máscara política se esconde na sombra de uma outra máscara, em que a hipocrisia tanto pode ser um capricho do Poder como pode simplesmente ser dispensada a favor de uma verdade insuportável e fatal no delírio de pureza. Se a hipocrisia é simulação, dissimulação e mentira, não será infinitamente mais humano tolerar a máscara da hipocrisia em Winston Smith? Qualquer que seja a resposta, sempre volátil e complexa, esta descreverá sempre uma inquietação que constantemente reinventa o dilema humano no mundo da política e que a narração alegórica de Orwell revela enquanto constante moral face a uma versão patológica da verdade.

A hipocrisia política é um facto da existência humana. Verdadeiro. Mas quando o homem se torna insensível à hipocrisia, tal só pode significar que passa pelo mundo sem alma.

Torna-se óbvio que a colecção de ensaios pretende ultrapassar uma lacuna, atribuída à teoria liberal, relativamente à reflexão sobre a presença e necessidade da hipocrisia na política. Existem duas versões da acusação. A primeira visão, a mais moderada, afirma que a teoria liberal estará tão comprometida com o ideal da autenticidade e da verdade que simplesmente não entende a inevitabilidade da hipocrisia na acção política. Uma segunda avaliação, a mais radical, sublinha que a teoria liberal terá um profundo entendimento da hipocrisia, mas ao simular deliberadamente uma falsa inocência, transforma-se numa manifestação suprema da hipocrisia. Face a esta equação de variável dupla, a proposta de Runciman limita-se ao reconhecimento de uma evidência realista no contexto de uma análise localizada nas circunstâncias do tempo e da teoria, com momentos brilhantes, mas que por vezes se perde no deleite intelectual pelo paradoxo.

No final, a leitura de Political Hypocrisy abandona o compagnon de route no incómodo mundo da fatalidade. O leitor interroga-se sobre o lugar e a importância da virtude na política. No livro não existem valores, princípios, um ténue gesto que seja de exigência moral ou da simples necessidade de dominação da natureza animal que habita o Homem. Afinal, o auge da civilização continua a ser o lugar da besta.

Em Les Rêveries du promeneur solitaire, Rousseau faz a distinção entre o homem moral e o homem bom. O homem moral age animado pelo sentimento do dever e tem o carácter do cidadão verdadeiro. O homem bom segue o seu instinto natural, uma primeira natureza imune à corrupção da vaidade. O homem político de Runciman não é bom nem é moral, mas responde exclusivamente às circunstâncias, numa sequência em que a necessidade e a superação instantânea são uma segunda natureza. De certa maneira, o livro de Runciman convida à resistência para não provocar o desespero.

A hipocrisia política é um facto da existência humana. Verdadeiro. Mas quando o homem se torna insensível à hipocrisia, tal só pode significar que passa pelo mundo sem alma.


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