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Partido por descobrir


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Capa do Livro A nova direita anti-sistema: o caso do Chega

Um fenómeno com estas características não pode deixar indiferente a ciência política, perante a necessidade de compreender e de explicar as condições e as razões do seu aparecimento e aparente crescimento.

Riccardo Marchi
A nova direita anti-sistema: o caso do Chega
Edições 70, 2020

Manuel Braga da Cruz

Manuel Braga da Cruz

Professor Catedrático e antigo Reitor (2000-2012) da Universidade Católica Portuguesa. Membro do Conselho Editorial de Nova Cidadania

O Chega irrompeu na vida política portuguesa, provocando apreensões e ataques, de um lado, e expectativas e curiosidades, do outro. As sondagens apontam para um crescimento. Um fenómeno com estas características não pode deixar indiferente a ciência política, perante a necessidade de compreender e de explicar as condições e as razões do seu aparecimento e aparente crescimento. Ninguém melhor para o fazer do que Riccardo Marchi, estudioso com créditos formados, na análise das direitas.

O seu livro foi recebido com um coro de impropérios, acusando-o de branquear um partido radical, por parte de académicos, na sua maioria, identificados com a esquerda, o que o tornou ainda mais conhecido, suscitando um acréscimo de curiosidade académica.

Trata-se de uma análise serena e desapaixonada, como convém a um trabalho académico, de uma tentativa de compreensão e de classificação científica, sem propósitos de avaliação ou de escalpelização militante. Não é, como porventura alguns pretenderiam, um exorcismo, mas tão só um frio ensaio de entendimento de algo que muitos temem e rotulam em termos condenatórios, e outros procuram saber ao que vem e o que pretende.

Riccardo Marchi faz uma primeira tentativa, pioneira, de penetração do desconhecido partido, excessivamente personalizado na figura do líder, perscrutando as suas raízes – pessoais e institucionais – as circunstâncias e razões do seu aparecimento, revelando as primeiras polémicas e disputas entre os fundadores e iniciais dirigentes, apresentando os traços gerais do seu programa e as controvérsias mais conhecidas sobre a sua elaboração. Só por isso, um esforço digno de encómio académico, por ousar entrar numa realidade ainda muito quente e fluida, com riscos de diversa conformação futura.

É um trabalho sério e rigoroso, que procura conhecer a realidade, mesmo na sua difícil apreensão, se bem que não tenha a pretensão de ter esgotado esse estudo, não abrangendo todas as dimensões. Se há omissões, que poderiam ter ajudado a explicar melhor o desenrolar do percurso deste novo fenómeno, tal não invalida o grande mérito de ter desbravado um terreno, ainda opaco e incerto.

Marchi optou por um estudo monográfico – foi isso, aliás, que lhe foi solicitado editorialmente – deixando de lado o enquadramento no sistema partidário português, sem o qual é difícil perceber o surgimento de um partido como o Chega, que é sobretudo, uma reacção à progressiva radicalização e esquerdização dos partidos no poder. O Chega – são os próprios protagonistas a confessá-lo –é uma réplica ao Bloco de Esquerda e aos seu radicalismo açucarado, uma reacção ao resvalar do Partido Socialista para a esquerda, com a “geringonça”, e uma ocupação de espaço político deixado vago, quer pela “social-democratização” do PSD, quer pela perda de terreno do CDS.

O aparecimento do Chega tem também raízes sociológicas, condições que propiciaram a sua tão rápida e fulgurante afirmação, que não é exclusivamente explicável pelo carisma do seu líder. Basta atentar na persistente referência às classes médias trabalhadoras no discurso partidário, para perceber que o Chega é muito devedor das crises em que o país tem estado mergulhado, sem crescimento significativo, com empobrecimento colectivo, e que o seu aparente sucesso advêm de se fazer porta-voz da insatisfação generalizada de amplos sectores da população portuguesa, decepcionada com os resultados da democra- cia vigente em termos económicos e sociais, revoltada contra a corrupção em expansão - que atinge os mais variados sectores dos órgãos de soberania - e contra a oligarquização do sistema, inconformada com a perda de nível dos seus dirigentes e governantes, apreensiva quanto ao futuro estratégico do país e da sua inserção europeia. O Chega tira partido dos receios relativos á emigração selvagem e sem controlo, da insegurança pública, das ameaças às identidades nacionais e locais, com tentativas de reescrita sectária da história e desrespeito pelos seus mais notáveis protagonistas. O Chega é resultado dos efeitos descontrolados da globalização, e da polarização política do país.

O Chega é um típico partido de protesto – “tribunício”, segundo Lavau – que, por isso mesmo, tem tido facilidade em colher a adesão de amplos sectores da população vitimada pelas crises sucessivas da vida pública portuguesa. Com a formulação programática de alternativas conhecerá certamente maiores dificuldades de mobilização.É fácil suscitar identificação com a denúncia. Mais difícil será mantê-la nas propostas de transformação.

Um partido é mais do que um líder e mais do que um programa.É um grupo, com dirigentes, com organização, com implantação regional, e sobretudo com uma prática política, aspectos que são ainda muito desconhecidos ou inexistentes. O Chega tem sido, prevalentemente, um partido de líder, e daí que Roberto Marchi tenha dedicado, e bem, tanta atenção ao percurso do seu líder.É um partido sem grupo dirigente nem passado conhecidos, que permita saber quem realmente é, ou em que se transformará. E isso ficou, obviamente, fora do âmbito de estudo, que se impõe fazer no futuro.

O trabalho de Riccardo Marchi ajuda-nos a penetrar no interior deste fenómeno, e a compreendê-lo em termos comparados. A conclusão de Roberto Marchi de que se trata de um partido radical, mas não de extrema direita, é amplamente comprovada e explicada. Estamos perante um partido que não pretende subverter nem substituir a democracia – não sendo por isso um partido contra o regime – mas que se propõe fazer uma mudança de sistema constitucional e de sistema político – um partido anti-sistema, que aponta para a instauração de uma IV república presidencialista. E pretende promove-la com uma mobilização radical, populista, que passa pela denúncia intensa, e apaixonada, do “pântano” em que parece ter caído a vida política portuguesa.


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