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O Regime de Sísifo

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Niilismo, Massas e Poder numa Interpretação da Teoria do Totalitarismo em Hermann Rauschning

Niilismo, Massas e Poder numa Interpretação da Teoria do Totalitarismo em Hermann Rauschning

Partindo de um enquadramento histórico e político dos escritos de Hermann Rauschning, o ensaio visa destes extrair uma teoria do totalitarismo original, procurando ainda separar o conceito holístico de “regime totalitário” resultante da descrição dos elementos constituintes da sua praxis política, mais transparentemente identificáveis sobretudo na obra The Revolution of Nihilism.

Hermann Rauschning
The Revolution of
Nihilism: Warning to
the West

Alliance Book Corporation, 1939

 

Niilismo, Massas e Poder numa Interpretação da Teoria do Totalitarismo em Hermann Rauschning

Partindo de um enquadramento histórico e político dos escritos de Hermann Rauschning, o ensaio visa destes extrair uma teoria do totalitarismo original, procurando ainda separar o conceito holístico de “regime totalitário” resultante da descrição dos elementos constituintes da sua praxis política, mais transparentemente identificáveis sobretudo na obra The Revolution of Nihilism.

Hermann Rauschning
The Revolution of
Nihilism: Warning to
the West

Alliance Book Corporation, 1939

Henrique Varajidás

Doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

Ao comparar distintivamente a definição assim extraída com definições análogas e ao integrá-la numa classificação original dos estudos nesta área, o texto pretende desta forma contribuir para tornar mais preciso e manuseável para investigação um contributo histórico sobre o tema geralmente esquecido.

O Autor e as Circunstâncias

O objectivo deste ensaio é extrair uma teoria do totalitarismo – i.e., uma reflexão logicamente coerente e empiricamente testável sobre esta categoria política – a partir dos escritos de Hermann Rauschning, incidentes sobre o III Reich e recorrentes a uma terminologia dissonante da posteriormente canonizada nos estudos sobre o fenómeno1.

Prussiano nascido em 1887, o autor pode bem ser lembrado como a epítome do Junker ao serviço da bandeira alvinegra.

Prussiano nascido em 1887Descendente de terratenentes, servente no Exército Imperial durante a I Guerra, superiormente instruído, Rauschning foi progressivamente atraído para a órbita do Nacional-Socialismo pela promessa de vigorosa reivindicação do território subtraído ao Reich por Versalhes (incluindo as suas próprias propriedades). Inscrito no N.S.D.A.P. em 1931, fez parte de uma geração de conservadores desiludidos com a sorte da Alemanha, apostados em conduzir a onda do histérico Nacional-Socialismo para a plácida ressurreição de uma “boa ordem germânica” pós-versalhiana.

Presidente do Senado da Cidade Livre de Dantzig em 1933-1934, Rauschning tomou consciência da dimensão revolucionária do Hitler Bewegung, bem como do perigo de transigir com os “métodos terroristas” do novo Regime. Apercebendo-se do caminho tortuoso por que seguia a Alemanha, abjurou a sua ligação política ao Nacional-Socialismo, acabando mais tarde por fugir da cidade portuária rumo a solo democrático (Suíça, França, Reino Unido, Estados Unidos). Escreveu então profusamente sobre a necessidade de reverter a “revolução niilista” substituindo-a por uma pacífica e construtiva “revolução conservadora” (RAUSCHNING, 1940, p. 6-7).

A sua obra Hitler Speaks Neste artigo, Henrique Varajidás adopta, em teoria do totalitarismo, um ponto de vista original, ao tentar extrair uma definição de regime totalitário de um autor, Herman Rauschning e a partir de uma sua obra – The Revolution of Nihilism, - que nunca em totalitarismo falam e que, sendo decididamente anti-totalitários, se batem (digamos que “à direita”, com o relativismo que classificações como esta comportam) por uma “revolução conservadora.” Manuel Lucena

A sua obra Hitler Speaks, composta por conspirativos “diálogos” com a liderança Nacional-Socialista, conferiu-lhe então o mediatismo que mais tarde haveria de motivar a suspeição relativamente ao valor testemunhal dos seus alegados encontros com Hitler e sequazes; já em 1983, o suíço Wolfgang Haenel demonstrou a natureza apócrifa de uma das fontes históricas mais citadas por estudiosos do Nacional-Socialismo2; desmentida a veracidade destes encontros “reveladores”, sobrou a certeza do thelos da escrita do prussiano: mais que a verdade, alertar o mundo de 1939 para a ameaça nazi e prevenir a autodestruição da Alemanha (LUKACS, 1998, p. 8).

O Valor Intrínseco do Isolamento de uma Teoria do Totalitarismo em Rauschning

Qual o valor acrescentado deste exercício de reconstrução lógica a partir de escritos circunstanciais sobre um caso só, nos quais não existe o escopo e nunca se procede efectivamente a uma definição exacta de regime totalitário?

A nossa resposta escora-se em dois pilares: primeiro, na particular weltanschauung do prussiano, que torna a sua análise deveras representativa de uma corrente doutrinária específica; segundo, no carácter universalizante que confere o acrescento das dimensões da “revolução sem doutrina” e da “dinâmica mundial” (a nosso ver dificilmente aplicáveis ao Nacional-Socialismo histórico) à analítica conceptual em torno da qual o autor indicia a forja de um conceito de totalitarismo.

Primeiro, Rauschning não só se afirma cabalmente como conservador (citando amiudadamente von Radowitz) como sistematicamente emprega na sua análise do totalitário III Reichuma estrutura axiológica e uma perspectiva analítica tributárias do conservadorismo.

conservadora em três pontos-chaveSintetiza-se esta matriz conservadora em três pontos-chave. Primeiro, na insistência numa antropologia falibilista e céptica: os homens têm tanta potência para o bem como para o mal, não podem enjeitar o transcendente sem consequências fulminantes para a ordem, são constituídos por instintos e sentidos conducentes tanto à desagregação como à agregação e é do edifício social historicamente herdado e de um correcto enquadramento político que depende a possibilidade da civilização. Segundo, numa visão pluralista e histórica da sociedade, construída em torno do tema da sua fragilidade: cada sociedade tem os seus valores particulares, respeitáveis, resultantes de uma longa e amadurecida evolução e o desrespeito por essa natureza secundária indelével é o primeiro passo para o ataque radical à própria natureza humana mais primária. Terceiro, num olhar limitador do âmbito da política, reduzida a meio organizador das condições básicas de preservação e evolução relativamente a uma História que vai revelando a conveniência de reformas guiadas pela utilidade circunstancial (e não por ideais metafísicos, se bem que com pleno respeito por uma Lei superior que nos homens imprime o dever de observância da equidade e da piedade) (BURKE, 1790) (COUTINHO, 2009) (HUNTINGTON, 1957).

No que respeita ao segundo pilar, urge partir do reconhecimento de Rauschning da extrema novidade do fenómeno (apodado de “revolução niilista”) sobre que versa sobretudo a obra The Revolution of Nihilism, bem como da gémea exigência de “novas categorias políticas” para o compreender (RAUSCHNING, 2010, p. viii, p. 265-266), para concluir que, não pretendendo ele próprio atingir um nível de abstracção incompatível com a denúncia, que constituiu o seu fito, de um regime político particular3, o autor nos legou um conjunto de reflexões a partir do qual esse salto universalizante se afigura possível, necessário e valioso (pela singularidade da perspectiva).

O Regime de Sísifo: Interpretação Holística do Original Conceito de Totalitarismo em Rauschning

Em lugar de uma reconstrução indutiva, apoiada em descrições permitentes de uma definição político-sociológica de regime totalitário4, parece-nos mais cabido introduzir primeiramente uma definição holística do conceito em Rauschning, tal e qual ele é extraível da sua obra, enfatizando os pontos originais que o diferenciam de propostas análogas (maximizantes da variação) frutiferamente comparáveis.

Totalitarismo em Rauschning é um tipo de regime político essencialmente novo5, destrutivamente parasítico6, assente na lógica viciosa7 do niilismo8 (na própria “revolução permanente” que este engendra). Reminiscente de um cesarismo de massas conducente à oclocracia9 (distinguível pela especificidade das massas contemporâneas10), afigura-se intrinsecamente instável quer vertical (pela dependência de impulsos primários predominantemente irracionais11) quer horizontalmente (pela dependência de um expansionismo gerador de uma crise mundial permanente12). Alimentado pela fantasia da conquista de um poder total (exercido sobre tudo e todos), auto-justificante mesmo se mascarado com as vestes da ideologia13, conduz à centralização do cúmulo de poder em cada momento num só homem14 rodeado de uma elite vampírica15 descartável16, seleccionada pelo único critério da álgida eficácia política; as suas características-chave são a flexibilidade e a instabilidade.

Este poder totalitário não é nem plenamente ilimitado – como se infere da proposta avançada pelo Professor Manuel de Lucena17 em torno de um tipo ideal totalmente inclusivo quanto ao objecto e plenamente exclusivo quanto à titularidade (dependente do arbítrio absoluto de um homem só) –, nem limitado pela “gaiola ideológica” – como sucede na proposta clássica de Hannah Arendt, construída sobre a hipótese extrema da possibilidade de uma dominação total num universo fantasmagórico encerrado sobre si mesmo, manipulado por um ditador submisso à gélida lógica dedutiva ideológica e habitado por homens em processo de redução a simples animais com funções, marionetas sem o mais leve traço de espontaneidade num mundo de reflexos condicionados (ARENDT, 2008, p. 604-605, p. 624-627).

Desligado o poder de qualquer horizonte espiritual, decaído no mundo de eficiência associado à técnica, cerceados os laços do político como veículo assegurador da continuidade transgeracional e transcendente da vida humana, acena o conceito negativo de “tábua rasa”

A especificidade da análise de Rauschning reside no tipo de limites ao poder total que considera. É possível distinguir dois filões gerais de que se reconhece a extracção do tom da argumentação: primeiro, a matriz conservadora; segundo, a analítica afecta às características específicas das massas, das condições de vida e do horizonte de possibilidades contemporâneos, emergida no primeiro quartel do século XX (máxime Ortega y Gasset18).

Primeiro, o autor, sem o explicitar, parte do postulado da existência de uma natureza humana (includente da consciência moral) e de uma natureza geral das coisas indestrutíveis, conducentes a uma ordem relativamente espontânea e necessariamente estabilizada numa convivência pacífica – logo, contrária ao atomismo revolucionário violento sistematicamente cultivado. Nem tudo é possível19: a natureza humana, enquanto dote imutável do Criador, não é adestrável ao ponto de se poderem substituir as sempiternas questões do espírito por ersatzs desenhados por uma técnica de dominação; o homem será sempre um ser dotado de sociabilidade co-natural, só plenamente realizável no seio da família e dos espaços de associação mediantes entre o seu Eu e o macro poder político (que não pode usurpar a definição total da sua identidade e a justificação absoluta das suas acções).

Estas leis inexoráveis da experiência humana necessariamente condenam a mobilização interna e a expansão externa do regime totalitário a um trabalho de Sísifo, em que a pedra do “poder pelo poder para o poder” necessariamente acabará por rolar sobre a sociedade que a empurra20. São quatro as fontes de esgotamento do motor totalitário a que o autor alude: a revolta em massa, i.e., o caos ingovernável resultante da libertação da espontaneidade revolucionária numa sociedade artificialmente obrigada a viver em mobilização frenética21; o ressurgimento da ética num espaço público até então esmagado sob o peso do monopólio das convenientes justificações políticas para todo o tipo de acções22; a vingança da escassez, com a impossibilidade de sobrevivência do regime para lá do esgotamento dos recursos cuja exploração racional impede23; a constituição de uma coligação internacional adversária invencível24 (ou, no caso limite da conquista mundial, o inevitável esgotamento do dominador à luz das tarefas impostas pela dominação25).

No que ao segundo filão concerne, o autor entende que o homem-massa – caracterizado pelo encerramento sobre si próprio, a psicologia de “menino mimado” e a tendência para a expansão motivada por um orgulho despropositado de si mesmo (GASSET, 2007, p. 80-85) – é o próprio fautor do regime totalitário, constituindo a sua elite a primeira vaga destes narcísicos nóveis actores políticos.

O segundo limite ao poder total deriva exactamente desta tensa dialéctica entre a massa no poder e a massa dominada, que afasta os homens tradicionalmente virtuosos (distinguíveis pela resistência ao niilismo) do tabuleiro político: a primeira, incapaz de legitimar a posse do poder pela referência à tradição, à História ou à excelência criadora de obra (por incompetência e desinteresse), devendo o seu próprio poder à destruição da crença em qualquer instância reguladora objectiva, encontra-se necessariamente na paradoxal condição de ter que reprimir nos dominados os mesmos impulsos (niilismo, expansão narcísica, vontade do mando) que a levaram à condição de dominadora. O resultado é a necessária constante canalização destes impulsos da massa, que sempre tende à “acção directa” dificilmente controlável, para “inimigos internos” e “inimigos externos” a “desmascarar” e punir, funcionado assim o regime totalitário numa lógica viciosa, dificilmente equilibrável e auto-destrutiva.

O fecho da abóbada, o ditador totalitário, ao depender da conquista permanente do favor das massas, não é para Rauschning, e ao contrário do postulado respectivamente nos modelos de Manuel de Lucena e Hannah Arendt, nem um líder de arbítrio todopoderoso nem um súbdito da tirania da ideologia: é um funâmbulo caminhando entre multidões a caminho do descontrolo; um génio político com um presente envenenado nas mãos e a consciência atormentada da natureza sempre periclitante e flexível, mesmo a seu desfavor, do seu poder26.

necessidade de cultivar a revolução

Removidos – pela necessidade de cultivar a revolução, a crise e a contraproducente injecção propagandística permanentes, pretextos e combustível para a expansão – os freios institucionais historicamente herdados27 que impediam as massas de expressar descontroladamente os seus instintos primitivos e desagregadores, nada resta se não o poder nu, a potestas despida de autorictas, o universo dos impulsos, da inconstância e da insciência de multidões à satisfação das quais – por impossibilidade técnica de modificar a natureza humana, por implausibilidade contemporânea de viver apenas do medo incutido pelo tirano de outrora e por incapacidade prática de utilizar o poder como meio para um fim construtivo28 – toda a doutrina, toda a propaganda e, em última análise, toda a acção política se têm que adaptar.

O regime de Sísifo vive constantemente sob a espada de Dâmocles da ditadura da plebe – o regime para que interna e inexoravelmente tende o instabilíssimo regime totalitário29.

O Regime de Sísifo: Elementos Descritivos da Praxis do Regime Totalitário em Rauschning

Definida a natureza geral do regime totalitário, debrucemo-nos agora sinteticamente sobre alguns elementos teóricos que permitem falar numa estrutura arquitectónica abstraída por Rauschning.

O totalitarismo segundo o prussiano estriba-se em dois pilares fundamentais: o niilismo e o poder “desespiritualizado”30.

O primeiro define-se pela queda no puro materialismo, pelo abandono cumulativo de normas transcendentes capazes de conferir um quadro espiritual em que o poder se insira como função, parte de um Todo vastíssimo e tendencialmente harmonioso (RAUSCHNING, 2010, p. xii-xiii, p, 12-17, p. 120).

Disseminado na contemporaneidade pela multiplicação de homens-massa, o niilismo faz penetrar mesmo entre a virtuosa elite tradicional uma concepção de política como realidade hermeticamente fechada, despida de preocupações metafísicas ou ontológicas, um fim em si mesmo (RAUSCHNING, 2010, p. 100-105).

Desligado o poder de qualquer horizonte espiritual, decaído no mundo de eficiência associado à técnica, cerceados os laços do político como veículo assegurador da continuidade transgeracional e transcendente da vida humana, acena o conceito negativo de “tábua rasa”: se hoje tudo se destruir, no futuro (nunca precisado e sempre adiado pela impossibilidade mesma da plena dominação total do mundo) tudo se poderá reconstruir segundo uma perfeita “nova ordem natural”. A decorrente revolução permanente alimenta-se de radicalizações grávidas de radicalismo, como bonecas russas cujo desvelo o poder totalitário tem que evitar no interior (o que ameaçaria o seu poder) através da canalização para o exterior (RAUSCHNING, 2010, p. 32-34, p. 88, p. 274).

Mas como “organizar” a expansão do poder? Qual a “estrutura” arquitectónica que melhor descreve o poder totalitário?

O eixo do regime totalitário é a atomização artificial dos homens e a dissolução de espaços de sociabilidade familiares e intermédios no oceano político. Para o conservador Rauschning, o isolamento dos indivíduos não é já consequência natural da revolução industrial, da guerra ou do colapso da “sociedade burguesa”, como em teorias alternativas: ele é consequência artificial da vontade de exercício totalitário do poder.

Por um lado, a necessidade de manter uma dominação à revelia da natureza humana exige o abuso indiscriminado do emprego de meios “terroristas” (campos de concentração, terrorismo político, polícia secreta, intimidação civil…) visantes a espalhar o medo (subjectivo) e forçar à conformidade (RAUSCHNING, 2010, p. 44-45). Não existe em Rauschning a perfilha do “terror” (objectivo) como princípio do totalitarismo, diferentemente da maioria dos teóricos posteriores: a repressão política – apesar de sempre traduzida no recurso à violência como prima ratio no quadro de uma unidade política decaída na incivilização (RAUSCHNING, 2010, p. 27-28) – tem o fim transparentemente utilitário de evitar qualquer veleidade autonómica capaz de questionar o poder vigente31, não fazendo parte de um mecanismo homeostático de uma sociedade totalitária cristalizada (a “purga” e o extermínio auto-reguladores).

niilismo e do poderAlimentando-se cumulativamente do niilismo e do poder “desespiritualizado”, o regime totalitário traduz-se assim numa praxis de atomização, amedrontamento e coordenação de populações, meios para a mobilização expansionista. O objectivo? O poder. Mais poder.

Por outro, a artificialidade extrema do modelo exige o recurso a uma gigantesca e parasítica organização dos homens, cujo fito é simultaneamente perpetuar a atomização (destruindo vínculos humanos que vão ressurgindo como cogumelos) e garantir a coordenação das massas assim arrancadas dos seus laços naturais. Da conformidade forçada pela organização adicionada à doutrinação propagandística resulta a possibilidade de canalizar a energia de multidões temporariamente sedadas para o serviço das necessidades do corpo dirigente. Coroando este esquema organizativo, a exploração dos piores instintos humanos (ambição ilimitada, inveja, ódio pessoal…) para hiper-controlo mútuo sufoca na fonte qualquer associação autonómica ou questionamento da legitimidade da elite.

Tecnicamente, uma série de expedientes são adoptados pela liderança: multiplicação de organizações independentes entre si, promoção de rivalidades pessoais entre líderes, adopção de regulamentações tão pormenorizadas que passam a controlar e a identificar em absoluto e em todos os estágios públicos e “privados” da vida os seus “associados” e diferenciação de trato e acesso à informação por níveis de proximidade à liderança máxima (RAUSCHNING, 2010, p. 26, p. 37-42).

Uma orquestra desta dimensão com a incumbência de tocar a música da expansão oportunista exige necessariamente um maestro. O resultado desta necessidade básica de um pólo unificador “divinizado” é a concentração do mando em última instância num homem só, a encarnação da vontade de poder que anima todo o regime. Desta monopolização derivam a “virtude” e a “fraqueza” que melhor definem o regime totalitário: a flexibilidade máxima para a expansão (que só um único arbítrio decisor confere) e a total dependência de um centro insubstituível (RAUSCHNING, 2010, p. 34-43).

Então, fitando o poder total universal, toda a sociedade é mobilizada segundo os cânones do militarismo mais rude. À brutalização das massas e ao sacrifício de toda a autonomia política, económica e cultural na ara do “direito à revisão da ordem externa” correspondem a dissolução dos códigos de conduta do Exército tradicional (um óbvio limite para o poder total quando operante segundo um ethos particular) – inundado pela onda da conscrição universal igualitária –, e a transformação dos planos militares geralmente gizados para a hipotética ocorrência de uma guerra numa “estratégia alargada” a seguir em tempo de paz – “o período mediante entre duas guerras”, as quais deverão rebentar de surpresa e ser dirigidas contra inimigos inermes, desmoralizados e sangrados por “quintas colunas” (RAUSCHNING, 2010, p. 87-88, p. 94-95, p. 124-127, p. 138, p. 141-147, p. 179-182, p. 226-227).

Este estado de excepção permanente deve limitar ao máximo o âmbito do pensamento autónomo e adiar indefinidamente a resolução dos problemas de ordem interna; é o escape dos líderes para os problemas da governação (que não sabem e não podem resolver) e o meio específico para a consecução da prometida “panaceia”, sedativo para inquietações. O objectivo é a exportação da revolução permanente, a canalização da energia revolucionária para territórios onde seja possível a repetição ad nauseam da conquista, da pilhagem de recursos e da coordenação ao serviço da elite, agora “sagrada” pelo “sucesso” externo (RAUSCHNING, 2010, p. 32, 210-211, p. 245-246).

A cada passo de gigante no mapa mundial – sempre dado em função da oportunidade, com total desprezo por códigos legais ou éticos e com recurso a uma dialéctica sofística oscilante entre a reivindicação dos direitos dos oprimidos e a assunção de um poder arbitral superior culminante em ocupação – o poder totalitário reduz o risco e aumenta o potencial para a aventura seguinte. Revolução universal, permanente, com os olhos postos na utópica dominação de tudo e todos: o império mundial é limite para que tende o regime totalitário (RAUSCHNING, 2010, p. 183, p. 210-211, p. 231-235, p. 245-248, p. 260-266, p. 271-272)!

Alimentando-se cumulativamente do niilismo e do poder “desespiritualizado”, o regime totalitário traduz-se assim numa praxis de atomização, amedrontamento e coordenação de populações, meios para a mobilização expansionista. O objectivo? O poder. Mais poder. Como se o poder não pudesse libertar-se da prossecução de si próprio.

Enquadramento de uma Perspectiva Conservadora do Totalitarismo

Reconstruída a teoria do totalitarismo latente nos escritos de Hermann Rauschning, falta conferir-lhe um lugar no seio desta área de estudos politológicos, para a qual propomos a nossa taxonomia, baseada no foco predominante de cada investigador.

Assim, destrinçamos uma perspectiva “filosófica”32 (enfática do peso das motivações transcendentes do mero interesse, i.e., da vinculatividade dos construtos intelectuais precedentes, sobre os líderes e populações envolvidos numa experiência totalitária), uma perspectiva político-sociológica33 (determinante, através de estudos de caso e de técnicas de investigação comparada, das causas sociopolíticas e características estruturais dos regimes totalitários), uma perspectiva histórica34 (proponente de uma destrinça entre “totalitarismo moderno” e “totalitarismo pré-moderno”, justificada pela alegada comunhão de características entre o primeiro e alguns regimes não contemporâneos, sobretudo da Antiguidade Greco-Romana e Oriental) e uma perspectiva doutrinária (desfavoravelmente confrontadora do totalitarismo com uma concepção apriorística axiomática de homem, sociedade e lugar do político) (MAIER, 2010, p. 199-215) (STOPINNO in Bobbio, Matteucci, Pasquino, 2004, p. 1247-1259).

Na perspectiva “doutrinária” se integra Hermann Rauschning. Toda a sua argumentação, axiologicamente enquadrável no caldo doutrinário conservador, visa demonstrar a impossibilidade de mais que um triunfo limitado e temporário da hubris totalitária.

A natureza humana e a natureza das coisas, constantes e inquebráveis, impedem o regime totalitário de ser mais que um estéril e destrutivo trabalho de Sísifo, impossível e condenável. “Pode-se enganar todas as pessoas por algum tempo e algumas pessoas durante todo o tempo. Mas não se pode enganar todo o mundo por todo o tempo” – eis, retomando o dito de Lincoln, uma apropriada súmula do veredicto final de Rauschning sobre o fenómeno.


1 Rauschning, cuja pena sem intentos científicos perpassa as décadas de 30 e 40, emprega vários vocábulos para designar o mesmo objecto.
2 Hodiernamente o debate historiográfico em seu torno divide os que rejeitam totalmente as “memórias” de Rauschning; os que nelas identificam um misto de factualidade e fantasia; e os que acreditam ser fiabilíssimo o documento. Cremos insustentável a última posição.
3 O próprio Rauschning nos informa que o seu intuito é “despertar as forças da decência e da legalidade” e não “produzir uma interpretação definitiva ou histórica dos acontecimentos” (RAUSCHNING, 2010, p. xvi).
4 Cingindo-nos à equilibrada versão do Dicionário de Política (um estado da arte baseado num balanço entre a literatura clássica e a literatura crítica e revisionista) assinada por Mario Stoppino (que nos parece necessitada de urgente revisão à luz das experiências cambodjana e norte-coreana, por teorizar), sintetizemos esses elementos do conceito de regime totalitário: ideologia, partido único, ditador e terror (STOPINNO in Bobbio, Matteucci, Pasquino, 2004, p. 1258).
5 “This whole policy breaks with all customary standards; the political categories of the past are no longer relevant to it” (RAUSCHNING, 2010, p. 266).
6 “National Socialism succeeds everywhere as an element of dissolution or of disturbance of the existing order, or where it finds fresh material to consume. It fails wherever it attempts any genuine constructive work” (RAUSCHNING, 2010, p. 90).
7 “Freedom of action can be preserved in face of a continuing process only up to a certain point. Beyond that point one inevitably becomes the slave of events. The logic of the process takes charge, upsetting all independent plans and calculations” (RAUSCHNING, 2010, p. xiv).
8 “In any case, the greatest statesmanship could not set up a ‘revolutionary new order of this world’ on a nihilist moral foundation of this sort” (RAUSCHNING, 2010, p. 47).
9 “Ochlocracy, the dictatorship of the mob, is the goal toward which the development of the mass-democracy of Caesarism is leading. (…) At the end of this development there stands (…) the dictatorship not of the workers (…) but of the mob” (RAUSCHNING, 2010, p. 86-87).
10 “National Socialism does not mean the crushing of the ‘mass revolt’ but the carrying of it to completion” (RAUSCHNING, 2010, p. 27).
11 “…The whole system is based on taking men as they are and pandering to their weakness and their bestiality. (…) This resort to the worst of human motives, and to the extreme of brutality and violence, to hatred, vengeance, envy, ill-will, to licentiousness, to robbery, to lying on principle, its resort to all these motives and methods (…) must inevitably recoil in the end on the ruling élite themselves” (RAUSCHNING, 2010, p. 47).
12 “This is the actual plan of National Socialism in foreign policy – universal political unsettlement. (…) And it is only by its ubiquity, its interference in every problem of the world, that National Socialism can attain the maximum of power and influence which is its aim” (RAUSCHNING, 2010, p. 248).
13 “That which is intended for the mass is not applicable to the élite. Program and official philosophy, allegiance and faith, are for the mass. Nothing commits the élite – no philosophy, no ethical standard” (RAUSCHNING, 2010, p. 20).
14 “…the machinery must (…) embrace every side of life. (…) The whole gigantic apparatus is centered on the single supreme individual. (…) A grandiose and certainly a unique instrument of the leader’s will” (RAUSCHNING, 2010, p. 40-41).
15 “The parasitism which National Socialism (…) ascribe to the Jews is one of the main characteristics of National Socialism itself. National Socialism is living by the parasitic draining of the life-blood of its host, the nation on which it has fastened” (RAUSCHNING, 2010, p. 93).
16 “…The oligarchies of the new despotic systems are seated less firmly in their positions of power than those of the older and better balanced systems of government” (RAUSCHNING, 2010, p. 59). “The System might lose and replace subordinate elements, but it certainly cannot afford to lose its head” (RAUSCHNING, 2010, p. 43).
17 Conferir o Programa da Disciplina de Teoria do Totalitarismo citado nas referências bibliográficas.
18 Para além do filósofo espanhol, Rauschning expressamente menciona Vilfredo Pareto, Curzio Malaparte, Georges Sorel, Erich von Ludendorff, Friedrich Ratzel, Karl Haushofer, Ernst Jünger e Carl Schmitt.

tese optimista
19 Esta é precisamente a “tese optimista” que Arendt exprobra: “Dominador e dominados voltariam logo facilmente à ‘velha rotina burguesa’; após alguns primeiros ‘excessos’, sucumbiriam à vida de cada dia e às leis humanas; enfim, marchariam na direcção que todos os observadores, aconselhados pelo bom senso, previram tantas vezes. O engano trágico dessas profecias, provenientes de um mundo que ainda vivia em segurança, foi supor a existência de uma natureza humana que era imutável através dos tempos, identificar essa natureza humana com a História e assim declarar que a ideia de domínio total era não apenas desumana como irrealista. De lá para cá aprendemos que o poder do homem é tão grande que ele realmente pode vir a ser o que desejar” (ARENDT, 2008, p. 604).
20 “…Later it will become evident that everything that it [National Socialism] has credited itself with building is weak and rickety, because it runs contrary to nature, contrary to the deepest of men’s instincts, contrary to the whole spirit of European civilization” (RAUSCHNING, 2010, p. 299).
21 “The political rôle of the masses may have been reduced to insignificance, but as a natural force they remain formidable and untamed. National Socialism has destroyed the inhibitions that lay between their desires and destructive outbreaks. The diminishing suggestive influence of propaganda must lead one day to violent mass action, to slave revolts directed against all social order” (RAUSCHNING, 2010, p. 117).
22 “The fronde that will become dangerous to the dictatorship (…) is an ethical revulsion (…) which will only proceed from the spirit of Christianity. This is certainly not a political attitude, but it is much more” (RAUSCHNING, 2010, p. 118).
23 “Does not excessive planning and preparation imply a total exhaustion of the nation before the emergency arises? Is not the nation already wearied, and the economic system breaking down?” (RAUSCHNING, 2010, p. 137).
24 “The policy of striving after the maximum of power and dominion rests on the most disastrous misconception of the distribution of forces and of the real nature of effective force” (RAUSCHNING, 2010, p. 279).
25 “Even if the Third Reich achieves complete success in the redistribution of the world, (…) in the nature of things this can mean nothing but a permanent military occupation of subjugated territories, with all accompanying violence and terrorism. But there is no escaping the logical conclusion that the day will come when this effort brings exhaustion and the military occupying force is crippled” (RAUSCHNING, 2010, p. 267-268).
26 Rauschning sobre o “seu” “Hitler”: “O segrêdo do seu domínio (…) consistia numa só cousa: em pressentir qual o critério da maioria dos Gauleiters, optando desde logo pela opinião do maior número, mesmo antes de ouvi-los expôr as suas idéas. (…) Hitler não era ditador. Deixava-se levar pelas forças exteriores, muitas vezes contra a própria convicção. A soma dessas forças é que o impelia para a frente” (sic) (RAUSCHNING, 1940, p. 232). Sobre o abandono da Sociedade das Nações: “What was wanted was not careful consideration of what logic might seem to dictate, but an act that carried people away. (…) Whether this was discreet or not, the nation only understood acts of this sort, no haggling and bargaining” (RAUSCHNING, 2010, p. 234).
27 Os valores históricos cristalizados em práticas harmonizadoras de opinião, interesse e sentimento.
28 “The revolutionary élite can maintain itself in power in its permanently critical situation only by continually pushing on with the revolutionary process. (…) Only in a revolutionary period can the difficult problem of selection of personnel be treated with negligence (…). But this can continue only so long as there is little or no effort at genuinely constructive work, little being done beyond the using up of accumulated reserves, and revolutionary destruction” (RAUSCHNING, 2010, p. 32-33).
29 “…If they are wrecked [the foundations of national stability] there will be nothing left but the pursuit of the revolutionary course to the bitter end, to chaos and the dictatorship of the mob” (RAUSCHNING, 2010, p. 110).
30 A admiração de Hitler pela eficácia expansiva “secretista” de Igreja Católica, Jesuítas e Mações (alega Rauschning que sem consideração por qualquer religiosidade ou doutrina que efectivamente perfilhassem), é ilustrativa do tipo de raciocínio materialista que Rauschning pretende colar ao ditador totalitário (RAUSCHNING, 2010, p. 49-50).
31 Eis a articulação subtil que Rauschning propõe: “Crimes are arranged and attributed to opponents. The people are kept in a state of fear, utterly intimidated. At the same time they are stirred up into a blaze of indignation, given the sense that they have been saved from destruction and made to feel thankful to a strong regime that gives them security” (RAUSCHNING, 2010, p. 47).
32 Entre os grandes representantes desta corrente encontram-se Eric Voegelin, Romano Guardini, Hannah Arendt, Raymond Aron e Czeslaw Milosz.
33 Refiramos entre os seus cultores Carl Joachim Friedrich, Zbigniew Brzezinski, Robert Tucker e Juan Linz.
34 Frisemos o papel fundamental dos trabalhos de Karl Wittfogel, Franz Neumann e Barrington Moore originários desta perspectiva.

Referências · ARENDT, Hannah (2008) – As origens do totalitarismo. 3.ª ed. Alfragide: Publicações Dom Quixote.
· BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco (2004) – Dicionário de política. 12.ª ed. Brasília: Dinalibro.
· BURKE, Edmund (1790) – Reflections on the revolution in France. Oxford: Oxford University Press.
· COUTINHO, João Pereira (2009) – “Em busca do equilíbrio”, Revista Dicta&Contradicta, 3 (Internet: http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-3/em-busca-do-equilibrio/ ; verificado em 9 de Outubro de 2010).
· GASSET, Ortega y (2007) – A rebelião das massas. Lisboa: Relógio d’Água.
· HUNTINGTON, Samuel P. (1957) – “Conservatism as an ideology”, The American Political Science Review, 51 (2), pp. 454-473 (Internet: http://www.jstor.org/stable/1952202 ; verificado em 9 de Outubro de 2010).
· LUCENA, Manuel de (2010) – Teoria do totalitarismo (Programa do Seminário de Teoria do Totalitarismo leccionado no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa durante o semestre de Inverno do ano lectivo de 2009/2010; Internet: http://www.ucp.pt/site/resources/documents/IEP/Pós-Graduação,%20Mestrado%20e%20Doutoramento/Programas%202009/Semestre%20de%20Verão/Programa%20Teoria%20do%20totalitarismo.pdf ; verificado em 9 de Outubro de 2010).
· LUKACS, John (1998) – The Hitler of history. New York: Vintage Books.
· MAIER, Hans [et al.] (2010) – Totalitarianism and political religions: concepts for the comparison of dictatorships: volume 1. Milton Keynes: Routledge.
· RAUSCHNING, Hermann (1940) – Hitler disse-me. Lisboa: Livraria Clássica Editora.
· RAUSCHNING, Hermann (2010) [1939] – The revolution of nihilism: warning to the west. Kila: Kessinger Publishing Co.


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